Sim — e essa conexão é mais comum do que muitos pais imaginam. A dificuldade de leitura em crianças tem, com frequência, raízes na linguagem oral. Crianças que trocam letras ao falar, que tiveram histórico de atraso de fala ou que apresentam dificuldades para identificar sons nas palavras tendem a encontrar mais obstáculos quando chegam a hora de aprender a ler e escrever.

Neste artigo, vou explicar por que isso acontece, quais sinais merecem atenção e o que você pode fazer para ajudar seu filho — com ou sem o diagnóstico de dislexia.

Por que a fala influencia a dificuldade de leitura na criança?

Aprender a ler não é apenas reconhecer letras. É entender que cada letra representa um som, e que esses sons se combinam para formar palavras com significado. Essa capacidade chama-se consciência fonológica — e ela se desenvolve, antes de tudo, na fala.

Uma criança que não consegue perceber que "bola" e "mola" rimam, que "casa" começa com o som /k/ ou que "sapato" tem três sílabas está com a consciência fonológica em desenvolvimento. Quando ela chega à alfabetização, essa dificuldade reaparece: ela tem problemas para decodificar palavras, confunde letras que representam sons parecidos (como "f" e "v", "p" e "b") e lê de forma lenta e laboriosa.

A leitura é, em essência, linguagem oral transformada em símbolos. Se a base oral não está sólida, a leitura vai refletir isso.

Consciência fonológica: a ponte entre fala e leitura

A consciência fonológica é a habilidade de perceber e manipular os sons da língua — sílabas, rimas, fonemas. Ela se desenvolve de forma gradual, e há marcos esperados para cada faixa etária:

Crianças com dificuldades em consciência fonológica tendem a ter mais dificuldade de leitura e escrita na fase de alfabetização. E o mais importante: essas habilidades podem ser trabalhadas com estimulação adequada, tanto em casa quanto com acompanhamento fonoaudiológico.

Sinais de que a dificuldade de leitura pode ter origem na linguagem oral

Fique atento se seu filho, já em idade escolar, apresentar alguns destes sinais:

Esses sinais não confirmam nenhum diagnóstico — eles são pistas. A avaliação fonoaudiológica é o caminho para entender o que está acontecendo e traçar um plano de apoio específico para cada criança.

E a dislexia? Qual a relação?

A dislexia é um transtorno específico de aprendizagem que tem base neurológica e se manifesta principalmente nas habilidades de decodificação leitora e ortografia. Uma de suas marcas mais características é justamente o déficit em consciência fonológica.

Isso significa que crianças com dislexia costumam ter (ou ter tido) dificuldades relacionadas à percepção dos sons da fala — o que explica por que muitas delas também apresentaram questões de linguagem oral em fases anteriores.

É importante ressaltar: a dislexia só pode ser identificada por uma equipe multidisciplinar (geralmente fonoaudióloga, psicopedagoga e neuropsicóloga), e isso costuma acontecer a partir dos 7 anos, quando a alfabetização já está em andamento. Mas a intervenção pode — e deve — começar antes mesmo do diagnóstico formal, trabalhando as habilidades de base.

O que os pais podem fazer em casa

Brinque com palavras e sons

Jogos de rima, parlendas, trava-línguas e brincadeiras de separar sílabas são ótimos aliados. "Vamos falar o nome de três coisas que começam com /m/?" — esse tipo de brincadeira trabalha consciência fonológica de forma natural e divertida.

Leia em voz alta com frequência

Apontar para as palavras enquanto lê, perguntar sobre o que vai acontecer na história, explorar as ilustrações — tudo isso enriquece o repertório linguístico e prepara a criança para a leitura independente.

Não force a decodificação

Se seu filho está com dificuldade de leitura e você o força a "soletrar mais vezes", a experiência pode se tornar frustrante e ansiogênica. Prefira um ambiente de leitura leve, sem pressão, onde errar faz parte do processo.

Comunique-se com a escola

Professores são parceiros fundamentais. Compartilhe suas observações e pergunte como tem sido o desempenho da criança em sala. Quanto mais cedo todos estiverem alinhados, melhor para o seu filho.

Dificuldade de leitura não é falta de esforço nem de inteligência. É, na maioria das vezes, uma questão de desenvolvimento linguístico que tem solução — especialmente quando identificada cedo.

Quando buscar avaliação fonoaudiológica?

Se seu filho está no 1º ou 2º ano do ensino fundamental e ainda apresenta muita dificuldade para ler palavras simples, confunde letras com frequência ou evita qualquer atividade de leitura, vale a pena agendar uma avaliação fonoaudiológica. Isso não é exagero — é cuidado preventivo.

A fonoaudiologia atua diretamente no desenvolvimento da linguagem oral e escrita, da consciência fonológica e das habilidades de processamento auditivo. Uma intervenção precoce pode mudar completamente a trajetória escolar de uma criança.

Dra. Kamilla Guerra — Fonoaudióloga
Kamilla Guerra
Fonoaudióloga especializanda em voz. CRFa 11769-5 RJ. Proprietária do consultório Kamilla Guerra Fonoaudiologia com mais de 5.000 atendimentos online realizados com adultos e crianças em todo o Brasil no ano de 2025.

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