"Cacholo" no lugar de "cachorro", "papaleto" no lugar de "papelote", "telado" no lugar de "telhado". Se você convive com uma criança pequena, provavelmente já ouviu construções como essas — e achou fofo. Mas em algum momento, a pergunta surge: até quando criança trocando letras é parte do desenvolvimento e quando vira algo que precisa de atenção?

Por que crianças trocam sons ao falar?

O sistema fonológico — o conjunto de sons da língua — se desenvolve ao longo dos primeiros anos de vida. Não nasce pronto. A criança aprende a distinguir e produzir os sons da língua progressivamente, e nesse processo, substituições e simplificações são completamente esperadas.

Tecnicamente, essas trocas são chamadas de "processos fonológicos" — estratégias que o cérebro usa para simplificar sons complexos enquanto o sistema ainda está amadurecendo. São normais e esperadas até determinadas idades.

Criança que troca sons está, na maioria das vezes, aprendendo — não errando. O problema surge quando as trocas persistem além da idade esperada ou quando comprometem a inteligibilidade da fala.

Quais trocas são normais e até quando?

Substituições esperadas em crianças pequenas (até 3 anos)

O que deve estar resolvido por volta dos 4 anos

A maioria das substituições simples deve estar resolvida. A criança começa a produzir frases com boa inteligibilidade. Ainda pode haver dificuldades com sons como /r/ vibrante, /lh/ e grupos consonantais complexos.

O que deve estar resolvido por volta dos 5 a 7 anos

Sons mais complexos como o /r/ retroflexo ("rr"), /l/ e /lh/ alcançam maturidade articulatória plena nessa faixa. A fala deve ser amplamente inteligível para desconhecidos.

Quando a troca de letras merece avaliação

Procure avaliação fonoaudiológica se:

O que não fazer

Evite corrigir a criança de forma direta ("não é assim, é assado"). Isso pode gerar vergonha e ansiedade em torno da fala. A abordagem mais eficaz é a modelagem natural: quando a criança disser algo incorretamente, repita a palavra ou frase de forma correta na sua resposta, sem chamar atenção para o erro.

Por exemplo: a criança diz "quelo água". Em vez de corrigir, você responde naturalmente "Ah, você quer água! Vou pegar para você."

A avaliação fonoaudiológica vale a pena?

Sempre que houver dúvida, vale. Um fonoaudiólogo consegue avaliar se as trocas estão dentro do esperado para a faixa etária ou se há um distúrbio fonológico que se beneficiaria de intervenção. O diagnóstico precoce — quando necessário — acelera muito o processo de aquisição dos sons.

Dra. Kamilla Guerra — Fonoaudióloga
Kamilla Guerra
Fonoaudióloga especializanda em voz. CRFa 11769-5 RJ. Proprietária do consultório Kamilla Guerra Fonoaudiologia com mais de 5.000 atendimentos online realizados com adultos e crianças em todo o Brasil no ano de 2025.

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